GUERRA JUNQUEIRO,
meu "avô"

Extracto do meu Diário
14-9-1996

 

                     GUERRA JUNQUEIRO

                              (Extracto do meu Diário)

                                          14-10-1996

 

Hoje fui transplantar um arbusto em casa da minha filha. Até há poucos anos, praticamente até me reformar, nunca tinha plantado uma árvore, nem sequer uma couve ou uma simples alface. Agora, desde que temos a casa na Aldeia do Meco, planto árvores, hortaliças, flores, semeio, podo... enfim, melhor ou pior, faço praticamente todo o serviço do campo e de jardinagem. Acho que errei a minha vocação.  Devia ter sido agricultor e não administrativo. Ou será que ainda estou a tempo? Alexandre Herculano e o meu “avô” Guerra Junqueiro não viraram agricultores nos últimos anos das suas vidas?  Qualquer semelhança é óbvio que só pode estar na agricultura, que não no talento, não obstante ter atrás de mim, julgo, gerações e gerações de camponeses.

 

       Isto de chamar avô ao Guerra Junqueiro tem a sua História: O Poeta tinha, como é sabido, uma grande quinta em Barca d’Alva, que empregava um número relativamente elevado de trabalhadores agrícolas. Acontece que os meus avós maternos, ao que a minha mãe me contava, terão sido caseiros na referida quinta.  Acontece igualmente que os varões da minha família são geralmente dotados de um assaz volumoso e aquilino apêndice nasal, muito parecido com o órgão congénere do Junqueiro.

        Acontece ainda que, tanto eu como os meus irmãos e a minha própria mãe, fomos dotados de alguma inclinação para a versalhada. Vai daí, eu entretinha-me a atazanar a minha mãe, insinuando que a minha avó devia ter sido uma senhora muito ”generosa”, incapaz de negar alguma coisa a alguém e muito menos ao preclaro patrão e que era bem possível que, frutos dessa sua generosa disponibilidade, nós ainda fôssemos seus netos. A coisa pegou e nunca mais me referi ao Guerra Junqueiro, que não fosse por “avô”. A minha mãe fingia afinar, mas no fundo achava muita graça à história.

Também o meu padrinho, António Joaquim Ferreira de seu nome, conhecido na aldeia como Antoninho Canhoto, e uma das pessoas mais bondosas que tive a felicidade de conhecer, trabalhou à jorna, por diversas vezes, na quinta do famoso  e polémico Junqueiro.  Uma vez, contava ele, o Senhor Poeta (era sempre assim que a ele se referia) apareceu na quinta, mais precisamente no lagar, acompanhado de uns senhores franceses muito bem vestidos, que assistiram entusiasmados à pisa da uva pelos trabalhadores, de pés descalços e calças arregaçadas.

Quando acabou o trabalho, o Senhor Poeta, mandou servir uma merenda aos convidados e aos jornaleiros. E então, no meio da comezaina, um dos trabalhadores, já quente com o vinho da região servido copiosamente, sobe para cima de uma pipa e grita: “Viva o senhor Guerra Junqueiro, o maior poeta da raça latina!”  Ou o homem sabia muito, ou o avô Junqueiro não descurava o seu marketing.

Nunca me esqueci desta história... nem do meu saudoso padrinho. Isto tudo a propósito de quê?  Ah! de agricultura, agora me lembro. Onde ela me levou!...

 

 

 
 

 

EM HOMENAGEM A GUERRA JUNQEIRO

Em homenagem ao grande Poeta, ao grande transmontano, à gloria nacional que foi Abílio Guerra Junqueiro, nascido em Freixo-de-Espada-à-Cinta em 1850 e falecido em Lisboa em 1923 - Poeta que foi em vida elevado aos píncaros da fama, que Portugal inteiro chorou na morte e que ultimamente parece ter passado de moda, como se o génio de modas fosse - crio aqui uma secção onde vou pondo alguns dos seus mais famosos poemas. Tempos houve em que não havia ninguém que não os soubesse de cor e  não os recitasse nas festas e nas escolas. Hoje os tempos são outros, mas o que é belo, belo permanecerá para sempre, indiferente à modas, capelinhas, circunstâncias conjunturais e efémeras.

Começo pois, com um poema, extraído da sua obra "Os Simples", que se enquadra perfeitamente na ideia de"regresso", ,que enforma esta minha página.

Regresso ao Lar
Ai, há quantos anos que eu parti chorando
Deste meu saudoso, carinhoso lar!...
Foi há vinte?...há trinta? Nem eu sei já quando!...
Minha velha ama, que me estás fitando,
Canta-me cantigas para eu me lembrar!...

Dei a volta ao mundo, dei a volta à Vida...
Só achei enganos, decepções, pesar...
Oh! a ingénua alma tão desiludida!...
Minha velha ama, com a voz dorida,
Canta-me cantigas de me adormentar!...

Trago d'amargura o coração desfeito...
Vê que fundas mágoas no embaciado olhar!
Nunca eu saíra do meu ninho estreito!...
Minha velha ama que me deste o peito,
Canta-me cantigas para me embalar!...

Pôs-me Deus outrora no frouxel do ninho
Pedrarias d'astros, gemas de luar...
Tudo me roubaram, vê, pelo caminho!...
Minha velha ama, sou um pobrezinho...
Canta-me cantigas de fazer chorar!

Como antigamente, no regaço amado,
(Venho morto, morto!...) deixa-me deitar!
Ai, o teu menino como está mudado!
Minha velha ama, como está mudado!
Canta-lhe cantigas de dormir, sonhar!...

Canta-me cantigas, manso, muito manso...
Tristes, muito tristes, como à noite o mar...
Canta-me cantigas para ver se alcanço
Que a minh'alma durma, tenha paz, descanso,
Quando a Morte, em breve, ma vier buscar!...



e continuo com outro belíssimo poema de "Simples"
Repare-se no lirismo, na frescura com que pinta
(e não é de um quadro que trata?!) a figura da boeirinha!
Préstito fúnebre

Que alegrias virgens, campesinas, fremem
Neste imaculado, límpido arrebol!
Como os galos cantam!... como as noras gemem!...
Nos olmeiros brancos, cujas folhas tremem,
Refulgente e novo passarinha o sol!...

Pela estrada, que entre cerejais ondeia,
Uma pequerrucha, – tró-la-ró-la-rá –
Vai cantando e guiando o carro para a aldeia...
São os bois enormes, e a carrada cheia
Com um castanheiro apodrecido já.

Oh, que donairosa, linda boieirinha!
Grandes olhos garços, sorrisinho arisco...
D’aguilhada em punho lépida caminha,
Com a graça aérea d’ave ribeirinha,
Verdilhão, arvéola, toutinegra ou pisco.

Loira, mas do loiro fulvo das abelhas;
Fresca como os cravos pelo amanhecer;
Brincos de cerejas presos nas orelhas,
Na boquita rósea três canções vermelhas,
Na aguilhada, ao alto, uma estrelinha a arder!

Descalcinha e pobre, mas sem ar mendigo,
Nada mais esbelto, mais encantador!
Veste-a d’oiro a glória do bom sol amigo...
O chapéu é palha que inda há um mês deu trigo,
A saíta é linho inda há bem pouco em flor!...

E os dois bois enormes, colossais, fleumáticos,
Na aleluia imensa, triunfal, da aurora,
Vão como bondosos monstros enigmáticos,
Almas por ventura d’ermitões extáticos,
Ruminando bíblias pelos campos fora!...

Ao arado e ao carro presos noite e dia,
Como dois grilhetas, quer de Inverno ou V’rão!
E, submissos, uma pequerrucha os guia!
E nos sulcos que abrem canta a cotovia,
As boninas riem-se e amadura o pão!...

Levam as serenas frontes majestosas
Enramalhetadas como dois altares
Madressilvas, loiros, pâmpanos, mimosas,
Abelhões ardentes desflorando rosas,
Borboletas claras em noivado, aos pares...

E eis no carro morto o castanheiro, enquanto
Melros assobiam nos trigais além...
Heras amortalham-no em seu verde manto...
Deu-lhe a terra o leite, dá-lhe a aurora o pranto...
Que feliz cadáver, que até cheira bem!...

Musgos, liquens, fetos – química incessante! –
Fazem montões d’almas dessa podridão...
Já nesse esqueleto seco de gigante,
Sob a luz vermelha, num festim radiante,
Mil milhões de vidas pululando estão!...

Sempre à fortaleza casa-se a doçura
Como o leão da Bíblia morto num vergel,
Do seu tronco ainda na caverna escura
Um enxame d’oiro rútilo murmura,
Construindo um favo cândido de mel!...

Oh, os bois enormes, mansos como arminhos,
Meditando estranhas, incubas visões!...
Pousam-lhes nas hastes, vede, os passarinhos,
E por sobre os longos, tórridos caminhos
Dos seus olhos caem bênçãos e perdões...

Chorarão o velho castanheiro ingente,
Sob o qual dormiram sestas estivais?
Almas do arvoredo, o seu olhar plangente
Saberá acaso misteriosamente
Traduzir as línguas em que vós falais?!...

Castanheiro morto! que é da vida estranha
Que no ovário exíguo duma flor nasceu,
E criou raízes, e se fez tamanha,
Que trezentos anos sobre uma montanha
Seus trezentos braços de colosso ergueu?!...

Onde a alma, origem dessas formas belas?
Em tão várias formas que sonhou dizer?
Qual a ideia, ó alma, convertida nelas?
E desfeito o encanto, que nos não revelas,
Que aparências novas tomará teu ser?...

Noite escura!... enigmas!... Ai, do que eu preciso,
Boieirinha linda, linda d’encantar,
É dessa inocência, desse paraíso,
Da alegria d’oiro que há no teu sorriso,
Da candura d’alva que há no teu olhar!...

Grandes bois que adoro, p’ra fortuna minha,
Quem me dera a vossa mansidão cristã!
Arrotear os campos, fecundar a vinha,
E nos olhos garços duma boieirinha,
Ter duas estrelas virgens da manhã!...

E também quisera, mortos castanheiros,
Como vós erguer-me para o Sol a flux,
Dar trezentos anos sombra aos pegureiros,
E num lar de choça, em festivais braseiros,
A aquecer velhinhos, desfazer-me em luz!...




DADOS BIOGRÁFICOS

Abílio Manuel Guerra Junqueiro

·  1850: Nasce  em 17 de Setembro no lugar de Ligares, Freixo de Espada à Cinta; filho do lavrador José António Junqueiro e Ana Maria Guerra

·  1866: Frequenta o curso de Teologia na Universidade de Coimbra;

·  1867: «Vozes Sem Eco»;

·  1868: «Baptismo de Amor». Matricula-se na Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra;

·  1873: «Espanha Livre». Colaboração de Guerra Junqueiro em «A Folha» de João Penha. É bacharel em Direito;

·  1874: «A Morte de D. João»;

·  1875: Primeiro número de «A Lanterna Mágica» em que colabora;

·  1878: É nomeado Secretário Geral do Governo Civil em Angra do Heroísmo;

·  1879: «A Musa em Férias».Adere ao Partido progressista. È transferido de Angra do Heroísmo para Viana do Castelo e eleito para a Câmara dos Deputados;

·  1880: Casa a 10 de Fevereiro com Filomena Augusta da Silva Neves. A 11 de Novembro nasce a filha Maria Isabel;

·  1881: Nasce a filha Júlia. Interditada por demência vem a ser internada no Porto;

·  1885: «A Velhice do Padre Eterno». Criação do movimento «Vida Nova» do qual Guerra Junqueiro é simpatizante;

·  1887: Segunda viagem de Guerra Junqueiro a Paris;

·  1888: Constitui-se o grupo «Vencidos da Vida». «A Legítima»;

·  1890: «Finis Patriae». Guerra Junqueiro é eleito deputado pelo círculo de Quelimane;

·  1895: Vende a maior parte das colecções artísticas que acumulara;

·  1896: «A Pátria». Parte para Paris;

·  1902: «Oração ao Pão»;

·  1903: Reside em Vila do Conde;

·  1904: «Oração à Luz»;

·  1905: Visita a Academia Politécnica do Porto e instala-se nesta cidade;

·  1908: É candidato do Partido Republicano pelo Porto;

·  1910: É nomeado Enviado Extraordinário e Ministro Plenipotenciário da República Portuguesa junto da Confederação Suiça, em Berne;

·  1911: Homenagem a Guerra Junqueiro no Porto;

·  1914: Exonera-se das funções de Ministro Plenipotenciário;

·  1920: «Prosas Dispersas»;

·  1923: Morre a 7 de Julho em Lisboa.

 

 

  CRÍTICAS SOBRE GUERRA JUNQUEIRO
   E A SUA OBRA

Citações compiladas pelo Sr. Silas Granjo 
e que eu, com a devida vénia,
retirei da sua magnífica Página de homenagem 
a Guerra Junqueiro, 
com a intenção de contribuir para uma maior divulgação 
da sua grande figura
de Homem e de Poeta. (endereço na Internet):

   www.terravista.pt/ancora/8809/junqueiro


 

Considero o Baptismo de Amor, poema do Sr. Guerra Junqueiro, um modelo de quadro em que as cenas da vida contemporânea poderiam ser vistas à sua luz sinistra, modificada pela sua­ víssima luz da poesia. O poeta que, tanto no verdor da vida, e sem experiência das grandes dores, as soube espelhar tão verdadeiras na alma, e revelá-las tão fiéis na expressão, denota o duplo talento de muito sentir e esplendidamente exprimir."

CAMILO CASTELO BRANCO (in Baptismo de Amor, 1868).

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"Ó bem haja o poeta, o justiceiro do ideal, que possuído de uma cólera inexorável e sagrada, te pegou por uma orelha, te arrastou para a praça pública, e ali, à luz terrível que escorre dos seus ver­sos vingadores, te arrancou a máscara, te despojou da capa e do sombrero aventureiros, te quebrou a guitarra embaidora – e então, apresentando-te ao povo nos trajos de saltimbanco ralaço, que fos­tes, és e sempre serás, te escreveu na testa, com letras de fogo, a sentença da consciência pública: «não passas de um tolo mau»."

ANTERO DE QUENTAL («A Morte de D. João», in Província, Vila Real, 1874; rep. in Prosas II).

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"Em 1865 saíram à luz em Coimbra as Odes Modernas, do Sr. Antero de Quental. Esse livro, além do seu valor intrínseco, possui para o caso de que nos ocupamos o valor especial de ter sido o iniciador do género de poesia de que o volume do Sr. Junqueiro nos dá hoje um exemplar esplêndido.  A semente lançada à terra da poesia nacional, vai em dez anos, produziu agora o seu mais belo fruto."

 

OLIVEIRA MARTINS («A Poesia Revolucionária e A Morte de D. João», Artes e Letras, n.º 3, 1874

 

"Há quase doze anos apareceu (... ) uma extraordinária geração, educada já fora do catolicismo e do romantismo, ou tendo-se emancipado deles, reclamando-se exclusivamente da Revolução e para a Revolução. Que tem feito ela? A não ser Teófilo Braga, constante­mente, Oliveira Martins, nos intervalos das empresas industriais, e Guerra Junqueiro, o grande poeta moderno da Península – quem trabalha? Onde estão os livros? Esta geração tem o aspecto de ter falhado."

EÇA DE QUEIROZ, (in «Ramalho Ortigão (carta a Joaquim de Araújo)», 1878, rep. in Notas Contemporâneas).

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"Antero de Quental e João de Deus são talvez mais poetas, mas não têm o vivo arranque, o impulso dominativo, a vibração belicosa e triunfante que nos versos de A Velhice do Padre Eterno e de A Morte de D. João lembram um toque de clarim chamando a avançar, de bandeiras desfraldadas ao vento, uma rosa ao peito e um sabre em punho (...) Dos poetas portugueses modernos Guerra Junqueiro é, pois, o de modernidade mais sugestiva e mais palpitante. É nele que vibra, pela graça, pela ironia, pela causticidade, pela paixão, pela superioridade oratória, uma maior parcela da inquieta, da volúvel, da irritada alma contemporânea. É na têmpera dos seus versos que nós melhor reconhecemos a têmpera dos nossos próprios músculos e dos nossos nervos (...)."

RAMALHO ORTIGÃO («Do Padre Eterno e da sua Velhice», in Farpas V, XXIX, Lisboa, 1888).

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"Se se procura um veio de verdadeiro sentimento na Morte de D. João encontra-se no lirismo amargo, sensual e mórbido do protagonista. Mas quem quer ver a manifestação do dom fundamental do seu espírito, excluída a faculdade de expressão, terá de considerar as suas composições satíricas. Nelas se revela uma verdadeira aptidão de sarcasta e, a despeito do carácter artificioso de alguns expedi­entes na invenção e expressão da ironia, acha-se que esta é a sua ver­dadeira vocação."

MONIZ BARRETO («A Literatura Portuguesa no Século XIX», in Revista de Portugal, 1889).

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"Nas nossas letras, e na nossa história, a Pátria é como que Os Lusíadas da decadência. Em amplitude de ideação, não exageramos se dissermos não depararmos senão com raros exemplos similares; todos eles de primeira categoria. (...) Se os exemplos similares são raros, raríssimos refrangem os superiores."

SAMPAIO BRUNO (O Brasil Mental, 1898).

 "O nosso grande poeta Guerra Junqueiro, atingindo a maturidade da razão adulta, revelou-se mui rara intuição filosófica, tornando incisivo o pensamento metafísico, que nele é sempre pro­fundo, mercê da nítida flagrância de uma imaginação igualmente opulenta na concepção e na expressão."

SAMPAIO BRUNO (in A Ideia de Dera, 1902).

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"Na torre da «Vernaculidade» as urnas onde se guarda o tesouro da língua regurgitam de pedras falsas ou que, pelo menos, se despoliram e perderam o brilho como turquesas cloróticas e o que há ainda a admirar na indigência estética do nosso torrão é a obra de alguns raros espíritos que dela se evadiram ou a ela escapa­ram, como o generoso esforço de quem evolucionou das juvenis truculências líricas de um sublime romantismo, na Morte de D. João, até à síntese leonardesca da «Canção Perdida» (...)." 

M. TEIXEIRA-GOMES («Carta-dedicatória a Henrique de Vasconcelos», in Agosto Azul 1904).

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"A Pátria sobreleva Os Lusíadas, primeiro, na perfeita originalidade e construção, na unificação e integralização dos complexíssimos elementos componentes, segundo, no poder puramente visionador e imaginativo, terceiro, na elevação, intensidade e complexidade do sentimento patriótico e religioso. (...) Posso mesmo acrescentar que, a meu ver, a Pátria forma com o Fausto de Goethe e o Prometeu Libertado de Shelley, a trilogia de grandeza da poesia super-lírica moderna." 

FERNANDO PESSOA («Resposta a um Inquérito Literário», 1914).         

"O panteísmo transcendentalista português – esse não o conhece o senhor. É pena porque, embora não seja de longa data, é, no entanto, um movimento original. (...) Este movimento produziu dois poemas que não posso senão considerar entre os maiores de todos os tempos. (...) Um é Oração à Luz de Guerra Junqueiro, o maior de todos os poetas portugueses (desaloja Camões do primeiro lugar ao publicar Pátria em 1896 – mas Pátria, que é um drama lírico e satírico, não pertence à sua fase transcendental-panteísta). A Oração à Luz é talvez a maior realização metafísico-poética desde a grande Ode de Wordsworth." 

FERNANDO PESSOA («Carta a um Editor Inglês», 1916).

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"Só um poeta de génio, num momento de grande exaltação de sentimento e de imaginação criadora, conseguiria fazer obra de arte, e obra de tanta arte, sobre um acontecimento contemporâneo, que a imaginações vulgares só poderia sugerir artigos de jornal, discursos e panfletos (...). A sátira mordente, o cinismo torpe, o mais chão egoísmo, o mais alado lirismo, todas as notas fortes da alma humana vibram nesse poema [Pátria], todo bafejado de um hálito trágico." 

FIDELINO DE FIGUEIREDO (in História da Literatura Realista, 1914, cap. III).   

 

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"Bocage, João de Deus, Gomes Leal, Guerra Junqueiro, eis aí outras tantas versões do boémio poetante, artista, de que ficam, a par da obra escrita, na difusão oral, soberbas humoradas. Sobretudo Junqueiro. Que diabólica óptica deformante, a desse gravador de escárnios sanguinários." 

FIALHO D'ALMEIDA («Boémios», in À Esquina, 1915).    

"E aí está a silhouette do romancista de génio [Eça de Queiroz], que com Teófilo Braga, Oliveira Martins, Junqueiro, e alguns mais, sintetiza o espírito da Renascença literária, de Portugal dos nossos dias." 

FIALHO D'ALMEIDA (idem).   

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"Poeta épico e poeta cívico, Junqueiro foi o intérprete da alma nacional nas crises mais graves que temos atravessado há cinquenta anos para cá. E à sua poesia eloquente e profunda deve a República uma das forças guiadoras da sua alma de justiça e de liberdade, deve a Pátria uma das mais altas expressões do seu sentimento e das suas aspirações mais íntimas." 

JOÃO DE BARROS («Guerra Junqueiro», in Atlântida, n.º 19, 15 de Maio de 1917).  

 

"Neste ano de 1950, em que vai ser festejado o primeiro centenário do nascimento de Junqueiro, já me segredam que surgem críticas e remoques desagradáveis à obra do grande Poeta. É caso para dizer: – vejam como ela está ainda viva, que provoca tais veleidades de agredi-la, de combatê-la e de destruí-la!" 

JOÃO DE BARROS («Guerra Junqueiro», in Hoje Ontem Amanhã, 1950, p. 55). 

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"Diante dos livros do Sr. Junqueiro, o problema que nos propusemos não foi o do crítico de literatura: foi um problema de educação; foi, se quiser, psicológico e social. (..) Reconhecemos sempre ao ilustre poeta o grande talento que lhe exorna o espírito, e se fôssemos um crítico de literatura havíamos de nos referir demoradamente às virtudes técnicas dos seus poemas, àquela intensidade expressiva da sua sonoridade e dos seus ritmos, ao grande engenho e habilidade artística, que toma aspectos de genialidade para os olhos desatentos da maioria; temos-lhe o respeito que é devido como escritor e como homem: e se há trechos aí que assumam o tom, não de uma análise mas de uma polémica, atribua-se um facto tão deplorável à própria natureza do delicado assunto, às tristes necessidades da demonstração, à romba imperícia do demonstrador, à falta de nuance e de subtileza e ao mal trabalhado do seu estilo; se fui incorrecto, porventura, declaro já que me condeno eu próprio, reclamando aliás as condenações dos outros, em críticas severas à minha análise." 

ANTÓNIO SÉRGIO («O Caprichismo Romântico na Obra do Sr. Junqueiro», 1920).   

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"Há tanta luz em Junqueiro, como trevas em Dante e mar profundo em Camões. Por isso, Guerra Junqueiro é um poeta genial. Os poetas de génio são aqueles que atingem, na sua arte, um poder sobrenatural de exprimir a Natureza, como Camões e Junqueiro ou a vida humana, como Tácito e Shakespeare..." 

TEIXEIRA DE PASCOAES («Duas Palavras», in A Águia, Julho-Dezembro, 1923). 

"Junqueiro na Oração à Luz, foi o nosso Orfeu, o génio ibérico helenizado, o que realizou em mármore Soares dos Reis. (...) Esta Oração coloca Junqueiro entre os maiores líricos do mundo, como A Velhice do Padre Eterno o coloca ao lado de Juvenal." 

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"El poder supremo de Guerra era el poder verbal. He asistido, en conversaciones con él, al parto de sus sorprendentes metáforas.  Y más de una vez me devolvía una frase, una paradoja, una metáfora mía transformada por él." 

MIGUEL DE UNAMUNO («Nada menos que todo un poeta», in A Águia, Julho-Dez., 1923). 

 

"Para Guerra Junqueiro, como para Maragall, la forma era el fondo, la expresión, la sustancia. A uno y a otro les debo las más felices observaciones sobre expresiones mías." 

MIGUEL DE UNAMUNO («En memoria de Guerra Junqueiro», in La Nación, Buenos Aires, 3.10.1923).   

Guerra Junqueiro, el más grande lírico portugués entre los vivos y uno de los mayores, hoy, del mundo...

MIGUEL DE UNAMUNO (Por Tierras de Portugal Y de España/Andanzas y Visiones Españolas. Madrid: Aguilar, 1962, p.32).

Y el mismo Guerra Junqueiro, ¿no es un ingenio ibérico más bien que portugués? A mí me resulta muchas vezes hondamente español, siendo hondamente portugués. Pero de él y de su obra quiero hablaros otro dia aparte. Acaso el culto a Víctor Hugo le veló algún tiempo su propio espíritu, como hoy lo tienen apartado de la poesia especulaciones de orden metafísico a base de ciencia experimental. Conoceréis muchos su Morte de don João, su Velhice do Padre Eterno y, sobre todo, Os Simples y Pátria. En estos dos poemas se encierra el alma de Portugal, del Portugal campesino, resignado y sencillo en el primero, y del Portugal heroico y noble en el segundo, que es una obra dantesca.

MIGUEL DE UNAMUNO (Por Tierras de Portugal Y de España/Andanzas y Visiones Españolas. Madrid: Aguilar, 1962, p.35).

 Los poetas portugueses son, en general, poco eruditos, ni aun en letras. Su lectura no es mucha ni muy variada, y su cultura mucho más vernácula que lo que ellos mismos creen. La enorme influencia que en la formación del ingenio de Guerra Junqueiro, el primero de los poetas portugueses de hoy y uno de los mayores del mundo, tuvo Víctor Hugo, prueba lo que di

MIGUEL DE UNAMUNO (Por Tierras de Portugal Y de España/Andanzas y Visiones Españolas. Madrid: Aguilar, 1962, p.41).

 El Cristo español – me decía una vez Guerra Junqueiro – nació en Tánger; es un Cristo africano, y jamás se aparta de la cruz, donde está lleno de sangre; el Cristo portu­gués juega por los campos con los campesinos y merienda con ellos, y solo a ciertas horas, quando tiene que cumplir con los deberes de su cargo, se cuelga de la cruz. 

MIGUEL DE UNAMUNO (Por Tierras de Portugal Y de España/Andanzas y Visiones Españolas. Madrid: Aguilar, 1962, p.46).

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"Ele (Junqueiro) já não era um poeta, mas um apóstolo. Quando falava da nossa decadência, as suas frases sibilavam como disciplinas. Nunca pensei em Vítor Hugo a seu lado, mas algumas vezes em S. Paulo; (...)" 

CARLOS MALHEIRO DIAS («Carta a Leonardo Coimbra», in A Águia, 1923). 

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"Tudo me conduz a repetir que os versos da Velhice e também os do Finis Patriae são os que mais vezes releio; que a introdução daquele livro «Aos Simples» durará tanto como a nossa língua; que os versos finais de A Morte de D. João, os iniciais de A Musa em Férias, a ode à mocidade das escolas e a sátira à Inglaterra são obras sem par na sua dualidade de género; que o soneto final da «Vala Comum» é perfeito, transparente e sonoro como o mais puro cristal de rocha." 

ALBERTO DE OLIVEIRA (in «Guerra Junqueiro»,1923).

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"Junqueiro não é o maior Poeta, porque o critério da quantidade se não aplica ao espírito, mas é um Poeta, na alta e completa significação da palavra. Um Poeta como Esquilo, Dante, Shakespeare, Camões e todos que uma onda de amor divino subiu, por momentos, até à pura visão espiritual." 

LEONARDO COIMBRA (in Guerra Junqueiro, 1923). 

"A Oração à Luz não é, pois, uma obra perfeita como Os Simples, embora o sopro da Inspiração seja nela mais volumoso, atingindo, por vezes, as proporções de uma visão de Sinai. Se Debussy poderia musicar alguns trechos de Os Simples, certos quadros da Oração à Luz requerem o hiper-volume musical de um Wagner..." 

LEONARDO COIMBRA (in Guerra Junqueiro, 1923

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"Tenho conhecido em toda a minha vida dois ou três santos e alguns homens superiores. Nunca vi mágico da força de Junqueiro. Homem extraordinário! Engenho extraordinário!" 

RAUL BRANDÃO (in Memórias, II, 1925). 

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"Há mais força íntima em catorze versos de Antero que num poema de Junqueiro; (...)." 

JOSÉ RÉGIO («Literatura Viva», in Presença, n.° 1, 1927).

"A obra de Junqueiro está por aprofundar esteticamente, – para lá das posições polémicas ou excessivas que, temos de confessá-lo, provoca. Em toda ela há belezas que se não reduzem a virtudes técnicas; e pelo menos Os Simples e a Pátria (poema, este, sobre o qual me parecem mais discutíveis os juízos de António Sérgio) são dos belos livros da nossa poesia." 

JOSÉ RÉGIO («Guerra Junqueiro e António Sérgio», in O Comércio do Porto, 27.9.1966).

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"Em Verdade direi: dos Grandes, que conheci, os que mais impressionaram a minha sensibilidade foram Guerra Junqueiro e Gomes Leal." 

MÁRIO BEIRÃO («Evocando Junqueiro», in Diário de Lisboa, 29.3.1941

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"Em Junqueiro há três personalidades distintas: o homem; o poeta; o arrependido. (...) O Poeta era, a despeito de alguns maldizentes, como Artur Botelho e seus discípulos, os srs. António Sérgio e Vieira de Almeida -, Poeta de génio, com arrancos como nenhum outro teve entre nós. Gomes Leal era mais lírico? Antero mais íntimo? João de Deus mais infantil? Sim. Mas Junqueiro foi alguma coisa que nenhum desses foi." 

ALFREDO PIMENTA («Carta ao Poeta Mário Beirão», in A Voz, 31.3.1941, pp. 1 e 4) 

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"Junqueiro não seria tão deficiente como António Sérgio o pintou e como nós o achávamos? Estaremos hoje dispostos a não fazer sobre ele um juízo tão severo? (...) Sim, passada a fase polémica, em vez de o negar, podemos reconhecer calmamente em Junqueiro um poeta – mas de segunda ordem. Um dos nossos grandes poetas, um igual de Camões ou de Antero, de Gomes Leal ou de Cesário Verde, isso é que não." 

A.CASAIS MONTEIRO («O Lugar de Junqueiro», 1942 [?]; rec. in A Poesia Portuguesa Contemporânea, 1977, p. 44).

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"Gomes Leal, Cesário Verde, António Nobre, Patrício (para dar alguns dos melhores nomes), que os modernistas louvam e opõem a Junqueiro (mesmo quando aqueles autores nada têm do modernismo), estão já, também, sob um ou outro aspecto, contidos em Guerra Junqueiro – precursor de precursores." 

AMORIM DE CARVALHO (in Guerra Junqueiro e a Sua Obra Poética, 1945, pp. 322-323

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"(...) Eu não digo que não tenha caricaturado o que chamo as ideias de Junqueiro, para explicar que tenham servido de base a uma grandiloquência, feita de génio verbal e de entusiasmos verdadeiros, – e, daí, a uma coincidência de gosto com o público, chave de um êxito literário e civil sem precedentes no seu tipo. Uma coisa é a fraqueza intelectual de uma obra de artista ou de poeta, outra o rendimento espiritual que, apesar desses fracos, se pôde tirar dela. E não há dúvida de que na obra de Junqueiro há autenticidade, entusiasmo, espírito." 

VITORINO NEMÉSIO («Guerra Junqueiro», in Ondas Médias. Biografia e Literatura, Lisboa, 1945, p. 329).  

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 "Os Simples não se criticam, lêem-se e admiram-se. Quem não tem sensibilidade para sentir aqueles versos, escusa de perder tempo a arquitectar argumentos para os discutir. Junqueiro trouxe para este precioso volume, breviário das almas de eleição, o espírito de Darwin, o grande génio da transformação das espécies, o vigoroso cabouqueiro do progresso que deu novo rumo à Biologia moderna." 

EGAS MONIZ (Guerra Junqueiro, 1949, p. 33).

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"Como Sampaio Bruno em filosofia, assim Junqueiro representa a mais inspirada e a mais ampla forma da poesia no trânsito do Século XIX para o presente século. Na sua obra em prosa, recolhida nas Prosas Dispersas e em Horas de Combate, se contém, tal como na obra em verso, tudo quanto o século XIX, de melhor e de pior, amou e esperou, intuiu e visionou, concebeu e realizou." 

JOSÉ MARINHO («Poesia e Verdade em Guerra Junqueiro», in Ocidente, n.° 149-150,  1950). 

 "Assim, quando vemos incidir o louvor, de um lado sobre Nicolau Tolentino ou Castilho, e, de outro lado, sobre Cesário Verde ou Camilo Pessanha, vemos preferida a poesia correcta e comedida mas restrita de significação, à poesia torrencial e magnificente, incorrecta e descomedida, se quiserem, mas na qual perdura e se reafirma, em época de episódios e incidentes estéticos, o sentido do poema autêntico." 

JOSÉ MARINHO  (idem, 1950). 

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"Nos vagalhões potentes que rolam nas primeiras páginas de A Morte de D. João a sonoridade parece dominar o seu criador, em ímpetos de ressonâncias; nas páginas imortais de Os Simples, o som apenas sublinha e amplifica a ideia, cantando em uníssono com ela, como um diapasão perfeito. Quer dizer que se estabeleceu entre a ideia e a forma aquele equilíbrio ideal, aquela correspondência exacta que assegura a Os Simples um lugar de eleição entre as obras­-primas da lírica nacional."  

MARIA HELENA ROCHA PEREIRA (As Imagens e os Sons na Lírica de Guerra Junqueiro, 1950, pp. 39-40).   

"Em Guerra Junqueiro impressiona-nos a mestria na colocação das preposições, processo sintáctico em que raros escritores chegam a ser bons aprendizes, e admiramos a feliz assimilação dos adjectivos aos particípios verbais, e, por consequência, a acção pela qual efectua a solicitação ao pensamento – solicitação irresistível – dos substantivos complementares. O evolucionismo de Guerra Junqueiro, longe de ser nebuloso ou dissolvente, tende sempre para a estrutura das formas paradigmáticas." 

ÁLVARO RIBEIRO (in A Arte de Filosofar, 1955, p. 182).

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"O pardieiro moral em que se vivia, destelhado pelos românti­cos, havia que demoli-lo. Cada um veio com a sua picareta. A de Junqueiro era de aço damasquinado de ouro rútilo e percuciente como a espada de um arcanjo. Nunca se viu na língua portuguesa as sílabas cantarem assim, havendo topado uma consonância melodiosa jamais achada por outro plectro. Nunca as palavras se associaram para mais sonora polifonia a abençoar e a maldizer. Quem ensinou aos poetas nacionais a ciência dos ritmos, crótalos e címbalos, senão a magistral musa junqueiriana?" 

AQUILINO RIBEIRO («Guerra Junqueiro, Prometeu Inagrilhoado», in De Meca a Freixo Espada à Cinta, 1960, pp. 382-383).

 

  Guerra Junqueiro surge na cava de uma desilusão colectiva em país avesso à derrota. Na sua voz crepita o fogo dos iconoclastas geniais – um fogo musical, de alexandrinos sonoros, para wagnerianos incêndios. Mas também há nela, sobrelevando o mais, – as injustiças, as ruínas –, uma oratória redentora.

A Pátria está no ápice da obra do portentoso vate. 

Livro apaixonado, hiperbólico, em muitos pontos odioso, marca não obstante com rasgos de génio uma época abissal da nossa história e um novo tipo de esperancismo.

‘É como que os Lusíadas da Decadência’, no comentário de Sampaio Bruno. O estro panfletário e épico do autor extravasou para o teatro."

 

FRANCISCO DA CUNHA LEÃO («O Português e a Dramaturgia. Três Momentos do Teatro Nacional», in Espiral – Cadernos de cultura, n.° 6/7, Lisboa, Verão de 1965, pp. 89-97; p. 94, trecho cit.).

 

 

  "(...) Mas com dizer que o estilo de Junqueiro é oratório não se esgota o assunto. É preciso considerar os elementos que constituem essa oratória. A sua análise mostraria talvez que o efeito sugestivo dos versos de Junqueiro resulta principalmente do ritmo e da forma visual que ele dá às ideias e sentimentos.

 

(...) o verso de Junqueiro é um instrumento rítmico admirável, e a acusação de monotomia que lhe foi feita não tem qualquer sentido. O acento do seu alexandrino é ascendente, sugere mais frequentemente um sentimento de crescendo; por outro lado, Junqueiro utiliza com relevo extraordinário os sons, tanto as tonalidades vocálicas como as vibrações, fricções e explosões consonânticas, sugerindo ora o fragor, ora a suavidade.

 

(...) Outro aspecto característico da poesia junqueiriana é o da visualidade. Junqueiro tem uma tendência pronunciada a converter em figura antropomórfica ou animal, quer os movimentos da natureza, quer as ideias abstractas. Dir-se-ia que, à falta da mitologia clássica, inventa um sucedâneo para ela.

 

(...) É evidente no entanto que Junqueiro possui uma extraordinária imaginação verbal e escreveu alguns versos e alguns fragmentos admiráveis que pertencem ao património definitivo da nossa literatura. A sua influência – não falando do aspecto político-social – foi considerável: exerceu-se sem dúvida sobre António Nobre e sobre muitos poetas do princípio do século XX, e prolongou-se até nossos dias." 

 

ANTÓNIO JOSÉ SARAIVA (História Ilustrada da Literatura Portuguesa, vol. I, Estúdios Cor, 1966, pp. 279, 280, 282). 

 

"Eu creio que Junqueiro está lá ao fundo do século dezanove muito contente por lhe estarmos a festejar mais um aniversário. Deve estar convencido que ainda damos por ele, e assim parece. Mas não é verdade – os últimos ecos da sua charanga levou-os José Régio para a cova. Esperamos que para sempre." 

 

EUGÉNIO DE ANDRADE (in Colóquio Letras, n.º 14, Julho, 1973, p. 70). 

 

"O processo Junqueiro ainda não está encerrado, e será, mais tarde ou mais cedo, revisto." 

 

JOSÉ GOMES FERREIRA (in Colóquio/Letras, n.° 14, 1973, p. 71).

 

"Repudiado o fluxo junqueiriano pela vanguarda modernista fixada à desintegração da ordem poética do século XIX, volta ele a interferir nos valores da vanguarda surrealista que não poderá alhear-se dum supernaturalismo implícito em certas coordenadas da obra de Junqueiro." 

NATÁLIA CORREIA (in Colóquio/Letras, n.° 14, 1973, p. 72). 

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"Do século passado, retemos sobretudo, pelas suas qualidades diversas, os nomes e as obras do simbolista Camilo Pessanha (...); de Guerra Junqueiro, numa anticlerical e antimonárquica intervenção poética que teria a sanção do regicídio de 1908 e a implantação da República em 1910; Gomes Leal (...); Raul Brandão (...); Teixeira de Pascoaes, poeta bem mais importante, quanto a nós, do que Fernando Pessoa."  

MÁRIO CESARINY («Para uma Cronologia do Surrealismo em Português», in revista Phases, n.° 4, Paris, Dez., 1973; rec. As Mãos na Água. A Cabeça no Mar, 1985, p. 261).

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"O debate, há muito aberto, sobre o valor de Junqueiro como poeta e como pensador é dos mais curiosos temas de sociologia da cultura no presente século." 

JACINTO DO PRADO COELHO «Guerra Junqueiro», in Dicionário de Literatura, 2.º vol., 3.º ed., 1978, p. 515).

 

"Mas o Poeta, esse, carece de uma leitura que lhe dê o lugar que merece, de último dos românticos, sem dúvida, e de primeiro dos modernos, com alguma probabilidade." 

NUNO JÚDICE (in Poesia de Guerra Junqueiro, 1981, p. 31).

"Não é só a problemática e a temática de Mensagem que é incompreensível sem o fio mítico que a liga a Pátria, onde, sob a caução de Oliveira Martins, pela primeira vez se assimila a nossa aventura colectiva à de uma ambígua loucura. É também o Pessoa, aparente­mente mais afastado de Junqueiro, que guarda as marcas de uma familiaridade, à primeira vista surpreendente. Tal é o caso de Alberto Caeiro. (...) Refiro-me ao mais célebre dos poemas de ‘O Guardador de Rebanhos’, ao VIII. Hoje, é o poema inteiro – salvo a parte final – que, sem esforço, me parece como indiscutivelmente vinculado não só a imagens precisas, mas à mitologia mesma do ‘escandaloso’ autor de A Velhice do Padre Eterno."   

EDUARDO LOURENÇO («De Junqueiro a Pessoa», in Fernando, Rei da Nossa Baviera, Lisboa, 1986, pp. 111-119, trecho cit., p. 115).

 

«Essa desvalorização de Junqueiro por parte da crítica literária prosseguiu e acabou por ver-se projectada no esquecimento por parte dos leitores; só recentemente esse processo deixou de parecer necessariamente irreversível, não por desactualizadas permanências da admiração incondicional, mas um tanto pelo fervor editorial e pelo situacionamento intertextual de fiéis estudiosos da sua obra e sobretudo por fecundos esforços de releitura cíclica e bachelardiana da sua poesia e por argutas pistas sobre a sua influência em Pessoa ou sobre as analogias humorais e discursivas com Régio." 

JOSÉ CARLOS SEABRA PEREIRA (in História Crítica da Literatura Portuguesa, vol. VII, 1995, p. 16).

 

"Razões profundas e de matriz oculta, das quais ascende a pro­blemática do pensamento heterodoxo português, ligam Guerra Junqueiro ao grupo, ao programa e à acção espiritual e patriótica desenvolvida pela Renascença Portuguesa. Na exterioridade, revela-o a sua adesão ao núcleo do Porto, em cuja lista directiva o seu nome ocupa o primeiro lugar e subscrevendo os artigos estatutários que são divulgados em Dezembro de 1911." 

PAULO SAMUEL («Nota in Guerra Junqueiro, de Leonardo Coimbra, 2.a ed., 1996, p. 6).

 

 

 

  Guerra Junqueiro, (...) entre os poetas contemporâneos, em Portugal, foi um dos maiores. Certamente o maior.

Nenhum outro o atinge na magnificência do verso, na variedade e na fulgência da rama, na esplendidez das imagens, na precisão das comparações, na corrente impetuosa das palavras. Ao mesmo tempo lírico e sarcástico, produziu versos que afagam como carícias, e outros que ferem como punhaladas.

        Não conheço outro poeta mais opulento no estilo, mais fluente na linguagem, mais subtil nos conceitos, mais destro no boleio da frase. O desenho dos quadros, é perfeito; a correcção da forma, é notável. Pode haver, e há, aqui ou além, algum senão, mas, em geral, a técnica de Junqueiro é admirável, a sua inspiração é luminosa, o sentimento que o guia produz o entusiasmo de quem o lê.

        Artista de superior relevo, vivia nos seus versos como se para eles transfundisse o espírito que o animava. Nele, não se deve admirar o filósofo, nem o político, nem o orador, nem o cultor da prosa. É o poeta, e só o poeta, que merece admiração. Se em  Guerra Junqueiro procurarmos a faculdade dominadora, que Taine considera como dirigente dos grandes escritores, encontramos, sem dificuldade, «a faculdade poética», atribuída pelo autor das Origens da França contemporânea a La Fontaine, o magistral engenhador das Fábulas celebérrimas.

        Para Guerra Junqueiro, a poesia era tudo. Houve tempo em que ele compunha versos tal como quem respira absorve o ar, ou como quem vê se embebe em luz. E ar e luz eram para o glorioso poeta os versos que lhe saíam da mente, perfeitos, como da cabeça de Júpiter nasceu, ar­mada, a deusa Minerva.

        Mais poeta cáustico do que sentimental, se ao seu lirismo, apesar de caloroso e vivo, faltava aquela meiguice que penetra no ânimo do leitor, e o prende e o cativa e o seduz, em compensação na sua feição satírica, havia a fogosidade, o ardor, a violência e o ímpeto de Juvenal. Por vezes, o calor do verso atingia a crueza e o furor. A Musa, que lhe inspirava tais cantos de guerra, devia cair, ensanguentada, exausta, ao fim de cada estrofe, em que as letras eram ferros em brasa e as apóstrofes estridulavam como gritos vibrantes de ódio ou de vingança!

        A obra que legou ressente-se deste jeito, desta feição dura, capaz de enregelar e de entorpecer corações e cérebros. Por isso, não é uma obra humana, afagada, superiormente, pela bênção de Deus. Se em Guerra Junqueiro houvesse mais intuição psicológica, mais força criadora, menos arrebatamento revolucionário, menor impulso das paixões, o seu estro maravilhoso teria produzido obra imortal, doirada pela glória eterna, acariciada pela admiração das gerações. A frescura da poesia, aliançada à elevação da ideia, a doura dos versos, ligada ao equilíbrio do pensamento, far-lhe-iam perdoar o exagero da retórica e até as tempestades das opiniões insustentáveis.

ANTÓNIO CABRAL, Os Talentos e Desvarios de Guerra Junqueiro. Lisboa: Portugália,1942, XI-XIV.

 

«A estranheza invernal de alguma poesia maior, que até pode­ríamos ler com Hardy, nunca será tão moderna quanto um poema de Guerra Junqueiro – «Dia de Inverno» (A Musa em Férias, s. d., pp. 171-173)." 

 

GIL DE CARVALHO («Derviche Transmontano», in As Sombras, À Ventura, Jesus e Pã, Teixeira de Pascoaes, 1996, p. 14). 

 

"Na primeira metade do século XX, os sergistas movimentaram uma campanha feroz contra os nossos grandes poetas do sagrado, como o jesuíta Manuel Antunes designa Pascoaes, Pessoa e Régio. A primeira grande vítima foi Guerra Junqueiro." 

ANTÓNIO TELMO (Horóscopo de Portugal, 1997, p. 152).

 

 

 

 

 

 

 

 

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